O Mundo Fora do Eixo e o Refúgio das Quadras
Se o meu nascimento foi um improviso, a minha infância escolar foi um teste de resistência. Estávamos no final dos anos 80, e o mundo ainda não tinha um nome para o turbilhão que acontecia dentro de mim. Hoje, todos conhecem o TDAH, mas naquela época, para os professores, eu era apenas o menino que "não parava quieto" ou que "tinha energia demais".
A escola, que deveria ser um lugar de descoberta, tornou-se um labirinto. Eu tentava focar, mas minha mente corria a uma velocidade que o quadro negro não conseguia acompanhar. O resultado veio cedo: fui reprovado na segunda série. A justificativa foi a "falta de maturidade", mas mal sabiam eles que minha maturidade estava sendo forjada no esforço de tentar caber em um molde que simplesmente não era do meu tamanho.
O vôlei e o basquete me deram o que o sistema escolar me negava: um canal para a minha intensidade. Na capoeira, onde cheguei até o penúltimo cordão, aprendi a gingar com os obstáculos. O esporte era onde eu aprendia disciplina, respeito e, acima de tudo, onde eu sentia que finalmente pertencia a algum lugar.
Há cerca de 32 anos, trocamos Osasco por Alphaville. Viemos para o Tamboré 1, para esta mesma casa onde hoje escrevo estas memórias e onde cuido dos meus pais. Alphaville permitiu que a minha liberdade florescesse. Entrei para o Colégio Mackenzie, onde passava o dia todo entre os estudos e as quadras, defendendo a camisa do colégio com a alma. Foi também o período em que a espiritualidade entrou na minha rotina através da Igreja Presbiteriana.
Mas o Mackenzie me deu algo muito mais valioso que medalhas: deu-me o Marcelo. Ele não é apenas um amigo; é o irmão que a vida me presenteou. Filho da Mara e do Paulo, ele se tornou minha âncora. Vivemos uma jornada de décadas, de viagens para Cambury até o frio de Campos do Jordão.
Estive ao lado dele em cada fase, incluindo o casamento do qual tive a honra de ser padrinho. Saber que este ano ele será pai de uma menina me faz perceber que, embora o mundo às vezes pareça fora do eixo, são esses laços reais que nos mantêm em pé.
O caminho ainda era longo, mas eu já não estava mais sozinho no elevador.