O Menino que Nasceu na Folia e Desafiou os Elevadores
Minha história não começou com um planejamento calmo ou uma sala de hospital silenciosa. Eu decidi chegar ao mundo no meio do barulho, das cores e do caos do Carnaval. Enquanto o Brasil parava para a maior festa do planeta, minha mãe, Alice — uma artista plástica sensível com alma de mestre —, e meu pai, José Reinaldo — um engenheiro civil de raciocínio exato —, viviam seu próprio drama particular.
Era feriado, e o hospital estava quase deserto. Não havia médicos de plantão para me receber. Foi aí que o destino deu seu primeiro "clique" na minha vida: meu pai, num impulso de urgência, encontrou um médico no estacionamento, lavando calmamente a roda do seu carro. Entre o balde de água e a pressa do meu pai, aquele doutor foi convencido a deixar o descanso de lado para me ajudar a nascer. Assim, entre o improviso e o destino, eu respirei pela primeira vez.
Cresci como o caçula, o ponto fora da curva de uma família estruturada. Minha irmã, Carolina, quatro anos mais velha, era o exemplo do "sucesso padrão": focada e bem-sucedida. Eu? Eu era o movimento puro. Minha mãe, que além da arte já tinha passado por pós-graduação em Marketing e grandes empresas, tentava aplicar em mim toda a paciência e educação que possuía, mas eu era um desafio diário.
Eu dava um jeito de escapar, de burlar a vigilância, e me aventurava sozinho pelo sobe e desce metálico. Perdi a conta de quantas vezes os vizinhos me trouxeram de volta pela mão, me encontrando passeando pelos andares com uma curiosidade que meu corpo miúdo mal conseguia conter. Eu não queria estar onde me colocavam; eu queria descobrir o que havia atrás de cada porta que se abria.
Nessa época, morávamos em Osasco, e nossa vida social orbitava o Clube Pinheiros. Foi ali que minha educação esportiva começou. O vôlei, o basquete e o tênis não eram apenas hobbies; eram o lugar onde minha energia transbordante finalmente encontrava um canal. Eu amava o jogo, a estratégia, o esforço. Cheguei quase ao topo na capoeira, aprendendo a gingar e a cair muito antes de saber que a vida me daria quedas muito maiores.
Olhando para trás, vejo aquele menino de dois anos no elevador e percebo que ele nunca foi embora. Ele ainda mora aqui dentro. A diferença é que hoje, em vez de apertar botões ao acaso, eu escolho meus próprios destinos. Mas a essência é a mesma: o desejo inabalável de ver o mundo, de não aceitar limites e de transformar qualquer improviso — como um médico no estacionamento — em um grande recomeço.