Capítulo 2 - O Refúgio das Quadras
Capítulo 2

O Mundo Fora do Eixo e o Refúgio das Quadras

Se o meu nascimento foi um improviso, a minha infância escolar foi um teste de resistência. Estávamos no final dos anos 80, e o mundo ainda não tinha um nome para o turbilhão que acontecia dentro de mim. Hoje, todos conhecem o TDAH, mas naquela época, para os professores, eu era apenas o menino que "não parava quieto" ou que "tinha energia demais".

A escola, que deveria ser um lugar de descoberta, tornou-se um labirinto. Eu tentava focar, mas minha mente corria a uma velocidade que o quadro negro não conseguia acompanhar. O resultado veio cedo: fui reprovado na segunda série. A justificativa foi a "falta de maturidade", mas mal sabiam eles que minha maturidade estava sendo forjada no esforço de tentar caber em um molde que simplesmente não era do meu tamanho.

Foi nesse momento de "fora do eixo" que o esporte no Clube Pinheiros me salvou. Enquanto na sala de aula eu era o problema, na quadra eu era a solução.

O vôlei e o basquete me deram o que o sistema escolar me negava: um canal para a minha intensidade. Na capoeira, onde cheguei até o penúltimo cordão, aprendi a gingar com os obstáculos. O esporte era onde eu aprendia disciplina, respeito e, acima de tudo, onde eu sentia que finalmente pertencia a algum lugar.

Há cerca de 32 anos, trocamos Osasco por Alphaville. Viemos para o Tamboré 1, para esta mesma casa onde hoje escrevo estas memórias e onde cuido dos meus pais. Alphaville permitiu que a minha liberdade florescesse. Entrei para o Colégio Mackenzie, onde passava o dia todo entre os estudos e as quadras, defendendo a camisa do colégio com a alma. Foi também o período em que a espiritualidade entrou na minha rotina através da Igreja Presbiteriana.

Mas o Mackenzie me deu algo muito mais valioso que medalhas: deu-me o Marcelo. Ele não é apenas um amigo; é o irmão que a vida me presenteou. Filho da Mara e do Paulo, ele se tornou minha âncora. Vivemos uma jornada de décadas, de viagens para Cambury até o frio de Campos do Jordão.

Estive ao lado dele em cada fase, incluindo o casamento do qual tive a honra de ser padrinho. Saber que este ano ele será pai de uma menina me faz perceber que, embora o mundo às vezes pareça fora do eixo, são esses laços reais que nos mantêm em pé.

Eu estava deixando de ser o menino "sem maturidade" para me tornar um jovem que encontrava sua força na amizade, na fé e na adrenalina do esporte.

O caminho ainda era longo, mas eu já não estava mais sozinho no elevador.

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